sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

251.


Foto de M

Não oiço os músicos nem o toque efusivo dos sinos a ecoar na serra. Talvez estejam a descansar. Imóveis os sinos na torre da igreja, os homens no adro, em conversa animada depois de saborosa refeição, a chanfana e o vinho da região a seduzir-lhes os sentidos. Os mordomos encarregados de organizar as festividades da padroeira da aldeia esmeraram-se na tarefa, que o acontecimento é de relevo numa povoação determinada a manter na memória esta parte da vida que lhe pertence. Escolheu-se a banda, ter-se-ão ajustado os euros a pagar, quantos não faço ideia. As conversações terão demorado várias horas, propostas e contrapropostas, assim me diz a experiência da minha vivência naquele lugar onde cada um observa o outro, nas mãos o copo de vinho da adega da casa, ou de aguardente, oferecidos entre palavras ditas e pensamentos resguardados. O contrato habitual é que toquem os músicos na missa e, finda esta, acompanhem solenemente a procissão atrás do padre e dos andores com as imagens dos santos. Só depois almoçam no salão da Junta de Freguesia, envolvidos pela azáfama das mulheres a servir convidados e mordomos. Um dia de alvoroço na rotina da existência. Festas desejadas ainda pelos escassos habitantes e pelos seus familiares emigrados que em Setembro revivem por breves dias a história de um tempo. Sim, encontrei-os no lugar por mim previsto. A fazer a digestão dos petiscos beirões e a prepararem-se para de novo subir e descer a rua principal da aldeia a tocar, antes de regressarem às suas terras. E eu, comovida, ouvi-os. Como sempre. Naquele momento e na grata lembrança das férias de verão da minha meninice. 
M

sábado, 30 de dezembro de 2017

250. MUDANÇA DE ANO - TEMPO DE LEMBRAR


Foto de M 

Quando um dia vi esta miniatura numa loja comprei-a porque me trouxe ao pensamento o rapaz leiteiro que subia a pé as velhas escadas de madeira do prédio onde eu morava com a minha família, num bairro de Lisboa. Era então no patamar do nosso 3º andar que ele vertia várias vezes o leite da leiteira de alumínio para dentro das medidas, e depois para o nosso fervedor, até completar a quantidade pedida, tão hábil o seu gesto que nem uma pinga de leite caía no chão. Ainda oiço o barulho das medidas e da corrente que as segurava! 
M

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

A MINHA ÁRVORE DE NATAL


Foto de M

E os meus desejos de Boas Festas para quem por aqui passar. 
M

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

249.


Foto de M 

Quando olhei para cima lembrei-me de uma conhecida expressão usada por muitos de nós em certas ocasiões problemáticas. Pois é, ter uma pedra no sapato acontece por aí, seja de gravilha o solo que se pisa, de alcatrão, cimento ou qualquer outro, até o imaginário onde o nosso pensamento circula. Por causa daquelas pedras no telhado, não sei se periclitantes, se tenazes na postura assumida, dei comigo a questionar-me sobre a expressão Ter uma pedra no sapato e cheguei à conclusão que o seu significado extravasa matérias e territórios. Em Villafranca del Bierzo, por exemplo, há quem as tenha no telhado. E o que aconteceria se o telhado fosse de vidro? Com facilidade se partiria, julgo eu, e pronto, ficava tudo em pratos limpos, ou melhor dizendo, em pedacinhos iridescentes, o que por vezes resolve situações em equilíbrio instável. 
M

terça-feira, 17 de outubro de 2017

248.


Foto de M

O cisne do lago Windermere, o meu cisne. Ontem lembrei-me dele e tirei-o da caixinha onde o guardo. Passaram já tantos anos desde que com ele me encantei numa loja em Bowness-on-Windermere e o trouxe comigo. A recordação de um lugar lindo. Julho de 1996! Tão distante e tão próximo. 
M



Fotografias resguardadas num álbum de tempos.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

247.


Foto de M

Talvez seja esta a cor da solidão, pensei mal a vi. Como fatia de bolo abandonada em mesa de refeição.
M

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

246.


Foto de M 


Dois livros, um legado de letras e afectos na minha vida. Le Petit Chose, um livro especial, a força e a beleza do título inscritas nele, com ilustrações que desde criança me encantavam. Foi-me dado pela minha Tia Chanel em 1957, a dedicatória manuscrita a tinta permanente azul na página de rosto: Maria Manuela - Natal 1957. Mais acima, a lápis, o seu nome e a data 5 de Outubro de 1909 a marcar o dia em que fazia 15 anos. Quando mo ofereceu, tinha eu 16 anos. Curiosa a semelhança das idades de ambas, escolha certamente intencional, pelo gosto de partilhar uma obra que apreciava e o desejo de que as emoções sentidas na sua adolescência se prolongassem em mim. O facto de ser escrito em língua francesa não foi impedimento para eu o ler. No liceu do meu tempo, além do ensino de francês fazer parte do currículo obrigatório durante pelo menos cinco anos, a reconhecida competência, e exigência, da minha professora preparou-me para a leitura deste livro e de outros. Conservei-o durante anos, folheando-o de vez em quando com muito cuidado para evitar a sua degradação, e um dia considerei mais avisado mandar encaderná-lo, mantendo contudo a capa mole original. 
Sobre o outro, Cendrillon, não tenho memória do momento em que o recebi de presente, talvez alguns anos antes do Le Petit Chose. Deste recordo a compaixão que sentia pela vida da Gata Borralheira e o meu fascínio pela imagem daquela rapariga do vestido azul que me levava a sonhar com príncipes e princesas. 
Tão diferentes os dois livros e no entanto...

M


«Ce qui me frappa d'abord, à mon arrivée au collège, c'est que j'étais le seul avec une blouse. A Lyon, les fils de riches ne portent pas de blouses; il n'y a que les enfants de la rue, les gones comme on dit. Moi, j'en avais une, une petite blouse à carreaux qui datait de la fabrique; j'avais une blouse, j'avais l'air d'un gone...Quand j'entrai dans la classe, les élèves ricanèrent. On disait: «Tiens! Il a une blouse!» Le professeur fit la grimace et tout de suite me prit en aversion. Depuis lors, quand il me parla, ce fut toujours du bout des lèvres, d'un air méprisant. Jamais il ne m'appela par mon nom; il disait toujours: «Eh! Vous, là-bas, le petit Chose!» Je lui avais dit pourtant plus de vingt fois que je m'appelais Daniel Eys-set-te... A la fin, mes camarades me surnommèrent «le petit Chose» et le surnom me resta...»
Le Petit Chose, Alphonse Daudet, Illustration de J. Wely, Collection Illustrée Pierre Lafitte & Cie, 90, Avenue des Champs-Élysées, Paris, 1909.

sábado, 5 de agosto de 2017

245. O MEU PÁSSARO - Epílogo


«O fim duma viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir e traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já. O viajante cumpre a sua obrigação: viaja e diz o que vê. Se não parece dizer tudo, será erro seu ou desatenção de quem leu.»

José Saramago, Viagem a Portugal, 1981

244. O MEU PÁSSARO - Dia 14


Foto de M
 
Gostei da tua companhia nesta minha viagem do pensamento, Meu Pássaro, mas descansemos agora um pouco no jardim interior onde me refugio tantas vezes. Espero que nele encontres inspiração para falares de ti. Durante estes catorze dias apenas te imaginei.
 
M

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

243. O MEU PÁSSARO - Dia 13


Foto de M

Portugal. Quem nos dera continuasse a ser verde, não fossem os desatinos dos homens que lhe vão devorando a cor. Que diriam dele agora Raul Proença e os seus ilustres colaboradores na realização da obra Guia de Portugal?

« (...) E assim um dia este livro, que eu sonhei nos verdes vales, nos rios plácidos e nas montanhas decorativas da minha terra, nas sua costas de enseadas azuis e de esburacadas grutas misteriosas (sonoras no marulho das ondas como enormes búzios ressonantes), no deslumbramento da sua luz epitalâmica e sob as suas grandes estrelas dormentes – este livro, feito pelo amor e pelo espírito de veracidade de alguns Portugueses para concitar e adjurar a infinita piedade portuguesa, merecerá, talvez, pelo muito que os outros fizeram e farão, e pelo pouco que eu vier ainda a fazer, ser denominado com justiça – o Livro de Amor e Devoção de Portugal

Raúl Proença, Guia de Portugal, Prefácio da 1ª edição publicada pela Biblioteca Nacional de Lisboa em 1924, retirado do 1º Volume Generalidades – Lisboa e Arredores, reedição da Fundação Calouste Gulbenkian, 1979
 
M